segunda-feira, 14 de junho de 2010

Lá, tudo é como eu vejo...

... Luxo, calma e desejo. Porque um novo Blog? Sei lá, cansei do antigo. Vida nova, Blog novo. E nesse pretendo ser mais ativo, sei lá, nem que seja só pra falar pra mim mesmo. :D Tenho sentido necessodade de escrever, mas uma necessidade de escrever pra fora, de sei la, externar quando estou bem, quando estou feliz, quando me animar com um projeto novo, quando abandonar um antigo, é isso, me escrever, e me reescrever, e me descrever, e me transcrever. Isso é um bom registro, depois eu leio e vejo como eu estava - sim, como eu estava, e não quem eu era, porque a gente nunca é, a gente sempre está. Mutatis mutandis. E de repente, tudo muda. As coisas passam de forma alucinantemente rápido. Escola e faculdade são mundos diferentes, muito diferentes. Mas não foi só isso que mudou. Desde o segundo ano eu estudava italiano, mas foi só quando eu começei a estudar francês que eu vi como eu realmente gosto de aprender língua estrangeira, e gosto muito. desde então me arrisco no alemão e no latim também, mas minha dedicação real é pro francês e pro latim. Latim é uma língua bem difícil, cheia de declinações e mecanismos próprios de funcionamento. Estudar latim é muito legal pra quem quer aprender mecanismo de língua, mas não pra quem quer aprender língua pra falar. Latim é bom pra quem quer estudar etimologia, bem como o grego, mas esse aí eu nem quero me arriscar...ainda. Fora isso, latim é legal pra quem precisa ler citações latinas constantemente, eu quero aprender o mais rápido possível, mas ainda tenho que me convencer a decorar as declinações ;D O Francês é uma língua absurdamente interessante, única. É a única língua que escrever é absurdamenter mais difícil que falar, vai se arriscar a por os acentos certos na hora certa! É uma questão de prática! Mas compensa, porque é uma língua basurdamente bonita também. E as francesas te ouvem se você fala em francês, isso é muito importante. Eu gosto muito de tudo que eu já li de literatura francesa. Quase tanto quanto eu gosto da literatura brasileira, que pra mim é sem comparação - porque é escrita na lingua mais bonita de todas, a nossa - e eu tenho me esforçado pra ler mais em francês. Achei até num sebo um livrinho de escola primária lá da frança. O troço é muito maneiro, muito interessante. Mas como estava muito velho, não tinha como manusear. Então eu xeroquei ele todo, me custou dez vezes mais que o um real que eu gastei comprando ele. É especialmente interessante, além de achado arqueológico - é de 1932 - porque estudar uma língua nova é basicamente se alfabetizar de novo, então um livro de ensino fundamental é perfeito. Fora ele, que ainda vou começar a mexer, tenho arranhado alguma coisa do sofocles em francês, que me animei a ler depois de ler a Antigone do Jean Anouilh. Como eu disse, é uma literatura maravilhosa. Especialmente o teatro e a poesia. Falando em poesia, e no espírito francês, vou aproveitar e colocar aqui minha versão em português da L'invitation au voyage, do Charles Baudelaire:
Convite à Viagem Ah, minha querida, Que tipo de vida Juntos iríamos ter! Amar à vontade, Amar de verdade Tudo me lembra você! Os sóis ofuscados de dias nublados Pra mim tão encantados, Tão misteriosos E tão mentirosos, Como seus olhos molhados. Lá, tudo é como eu vejo: Luxo. Calma. E desejo. Os anos passantes Polem nossa estante E os outros móveis do quarto. As mais raras flores Misturam odores A um doce cheiro ingrato. Nosso teto lindo, Nosso espelho limpo, O esplendor oriental, Tudo sussurando, Tudo segredando, Sua doce língua natal. Lá, tudo é como eu vejo: Luxo. Calma. E desejo. Vê, lá, ancorados, Mil barcos parados Que só querem relaxar Para saciedade Da sua vontade Que vêm de todo lugar. Cada sol que dorme Todo o campo cobre, Os barcos, toda a gente, De ouro e jacinto. O mundo dormindo Numa luz gostosa e quente. Lá, tudo é como eu vejo: Luxo. Calma. E desejo.

L'invitation au voyage

Mon enfant, ma soeur, Songe à la douceur D'aller là-bas vivre ensemble! Aimer à loisir, Aimer et mourir Au pays qui te ressemble! Les soleils mouillés De ces ciels brouillés Pour mon esprit ont les charmes Si mystérieux De tes traîtres yeux, Brillant à travers leurs larmes.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté, Luxe, calme et volupté.

Des meubles luisants, Polis par les ans, Décoreraient notre chambre; Les plus rares fleurs Mêlant leurs odeurs Aux vagues senteurs de l'ambre, Les riches plafonds, Les miroirs profonds, La splendeur orientale, Tout y parlerait À l'âme en secret Sa douce langue natale.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté, Luxe, calme et volupté.

Vois sur ces canaux Dormir ces vaisseaux Dont l'humeur est vagabonde; C'est pour assouvir Ton moindre désir Qu'ils viennent du bout du monde. — Les soleils couchants Revêtent les champs, Les canaux, la ville entière, D'hyacinthe et d'or; Le monde s'endort Dans une chaude lumière.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté, Luxe, calme et volupté.

Charles Baudelaire