sábado, 4 de dezembro de 2010


Novo baixo

[Quando a baixista deixa a banda]


E então você se foi

Tudo escureceu

E a chuva que caiu

Me forçou a ouvir

O som desse piano

O grito dos vocais

Mas me falta o seu baixo

E tudo se desfaz

“A guitarra sensual

Tomou-me o baixo

E foram solar juntos, juntos

Juntos além-mar”


Silêncio no piano

Um nó nos meus vocais

Foi-se o baixo e a guitarra

Mas nem tudo se vai


“Venham todos

Todos para a nova audiência

A antiga banda Coração Partido

Busca membros para a Novo Baixo”


Agora,

Tudo mudou

Nova banda

Novo amor

Novo baixo

Uma nova vida

O antigo se renovou!


E soa o teclado

Ecoam os vocais

Mudanças nessa banda

Sucesso que nos traz

segunda-feira, 29 de novembro de 2010


O Espectador Anônimo

Quando eu te olho
e tu me olhas
nasce em mim algo de novo
dentro do meu coração
esse algo novo, aqui denovo
sempre, sempre faz um jogo
na minha imaginação

E eu creio que te amo
e creio que sou amado
e o coração pulsando
já está enfeitiçado
sou um espectador
anônimo
um espectador
sem dono

Quando eu te olho
e não me olhas
fica sempre na memória
o sabor da rejeição
esse gosto azedo, azar, denovo
é uma peça nesse jogo
da minha indecisão

Mas eu creio que te amo
me assombra a solidão
e o coração pulsando
me diz "ame com paixão"
mas a mente vai pensando...
e me vem a indecisão
sou um espectador anônimo
na própria indefinição

domingo, 28 de novembro de 2010


Fantasmas de uma noite áspera


De vez em quando,

no instante de um traço,

como fosse um rascunho de um sonho,

penso que por ti sou amado.


E nesse mero instante,

num ínfimo acaso, na rua,

olhando bem no interior dos teus olhos,

imagino a tua alma nua.


E minhas sombras conselheiras,

daquelas que só aos loucos atormentam,

me convencem que tu me amas

e que teu olhar era a prova daquele afeto.


Leitor amigo,

nunca confie em fantasmas noturnos

eles não sabem nada sobre a paixão

me levaram a uma acre-doce ilusão

Num jogo infantil de minha mente

Erotomania. Esquizofrenia.

No frio áspero da meia noite

Torno ao isolamento novamente

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A Peça Escocesa

Macbeth

Somos as três sombras do hoje
somos os três olhos do amanhã
somos três, três irmãs
três vezes trinta e três vezes
trinta e três vezes
as sombras e os olhos dos tempos

Somos o mal que engole a luz
somos a luz que encobre o mal
somos três, três bruxas
três vezes trinta e três vezes
trinta e três vezes
o mal que nasce da luz

Rei da Escócia, salve!
Barão de Cawdor, salve!
barão de Glamis, salve!
trinta e três vezes três vezes
três vezes amaldiçoado
pela bênção que é a ambição
Trinta e três vezes três vezes
três vezes corrupto
podre de corpo e alma
trinta e três vezes três vezes
três vezes morto
menos vivo que Duncan
menos vivo que Banquo

Colhe os frutos que
nascem dos ramos que
crescem do mal que
semeaste em teu coração

Rega as flores rubras de sangue
com líquido ainda mais rubro
que escorre dos
vinte profundos veios
que tu mesmo abriste em tua moral

Que sois Macbeth
Que sois Cawdor
Que sois Glamis
Que sois Escócia
Trinta e três vezes três vezes
três vezes maldito
sois um fantasma
alma penada
que não resiste em assombrar
toda vez em que se pronuncia
o nome da Peça Escocesa

domingo, 14 de novembro de 2010

L’ENNEMI
par Charles Baudelaire

Ma jeunesse ne fut qu’un ténébreux orage,
Traversé çà et là par de brillants soleils ;
Le tonnerre et la pluie ont fait un tel ravage
Qu’il reste en mon jardin bien peu de fruits vermeils.

Voilà que j’ai touché l’automne des idées,
Et qu’il faut employer la pelle et les râteaux
Pour rassembler à neuf les terres inondées,
Où l’eau creuse des trous grands comme des tombeaux.


Et qui sait si les fleurs nouvelles que je rêve
Trouveront dans ce sol lavé comme une grève
Le mystique aliment qui ferait leur vigueur ?

— Ô douleur ! ô douleur ! Le Temps mange la vie,
Et l’obscur Ennemi qui nous ronge le cœur
Du sang que nous perdons croît et se fortifie !

-

O INIMIGO
Charles Baudelaire, vertido por Cristiano Gomes

Minha juventude foi apenas um tenebroso mau tempo,
Entrecortado aqui e ali por brilhantes ensolarados;
O trovão e a chuva me feriram tanto com seu vento
Que me restam no jardim escassos frutos avermelhados.

Eis então que alcancei o outono das idéias
Quando se necessita da pá e do ancinho o uso
Para assemelhar ao novo as inundadas terras,
Onde a água esvazia em fossas como fossem túmulos.

E quem sabe se as flores novas que penso
Encontrarão nessa areia lavada como a da praia
Seu vigor a sorvir desse místico alimento?

— Ó dor! Ó dor! O Tempo devora a vida,
E o umbroso Inimigo que nos rói o coração
Com o sangue que perdemos cresce e fortifica!

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A Dream Within a Dream By Edgar Allan Poe Take this kiss upon the brow! And, in parting from you now, Thus much let me avow— You are not wrong, who deem That my days have been a dream; Yet if hope has flown away In a night, or in a day, In a vision, or in none, Is it therefore the less gone? All that we see or seem Is but a dream within a dream. A dream within a dream I stand amid the roar Of a surf-tormented shore, And I hold within my hand Grains of the golden sand— How few! yet how they creep Through my fingers to the deep, While I weep—while I weep! O God! can I not grasp Them with a tighter clasp? O God! can I not save One from the pitiless wave? Is all that we see or seem But a dream within a dream? Um Sonho que num Sonho acontece (Edgar Allan Poe, vertido por Cristiano Gomes) Toma este beijo na testa, querida! E, eis que chega a hora de minha partida! Além disso, tenha uma coisa sabida: Não estás errada, quem pensa: Que meus dias são um sonho apenas Ainda se a esperança com o vento foi-se Em um dia, ou numa noite Numa visão, ou em visão nenhuma É verdade que ela se esfuma? Tudo que de fato vemos ou que parece Não é mais que um sonho que num sonho acontece E me vejo entre o barulho Das ondas do porto e seu marulho E nas minhas mãos retenho areia De grãos dourados como o sol que me incendeia Tão poucos! E tanto que mergulham Pelos meus dedos, ao profundo Enquanto choro... para o mundo! Oh, Deus! Não posso evitar, Nem com um mais forte apertar? Oh, Deus! Não posso salvar Apenas um do insensível mar? É verdade que tudo que vemos ou que parece Não é mais que um sonho que num sonho acontece?

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Rascunho

Não são os olhos
Nem a boca
Nem o sorriso
Nem os cabelos
Nem cada um de seus traços
Num conjunto harmônico

O mais bonito em você
É como, com cada um desses traços
Você cria um rascunho perfeito,
De beleza e bondade
Um sorriso,
Um olhar,
Um charme!

sábado, 30 de outubro de 2010

Entre a Cruz e a Espada
_________________________________
uma curta história sobre redenção

Prólogo:
Abutre aos abutres


e então acorda.
Seus fantasmas o perseguem
"Ai, vindes outra vez, inquietas sombras!"
Era um mercador, antes um usurário
e mais, assassino:
indiretamente ceifara vidas
que definharam, se prostituiram
e roubaram em nome de seus títulos
e de suas armas.

Arrependido, não mais podia conviver com isso
deixou o ramo, deixou o dinheiro
e se tornou mais um entre os mendigos
mais um entre os explorados
pelos agiotas, abutres de Prometeu

Nunca perdoado pelos homens,
antes o mais sacrificado entre os explorados,
procura o perdão de Deus,
e à igreja se dirige, com uma multidão de fiéis
que aguardam a redenção
e a salvação...

Parte I:
Em nome de Deus.


"Mas, padre, se a guerra é Santa
porque eu tenho que derramar tanto sangue?"
"O sacrifício dos infiéis redimirá teus pecados."
"Como?"
"Jesus foi batizado com água, tu serás batizado com sangue."
"Mas...e os mandamentos?"
"Só vai. Essa é a vontade de Deus"

Invadir. Destruir. Matar os impuros.
Que Deus é esse que eu não conheço?
Derramar sangue, derrubar os muros.
Se salvar, se salvar a qualquer preço.

Parte II:
A Cruz e a Espada


Pilhagens e pilhages
de mercadorias, moedas e corpos
de corpos, de almas, de sangue
de sangue escorrendo
escorrendo impuro e fiel
fiel que não pesa a alma
ou o sopro divino no eterno verbo
que no inicio era amar
e hoje é matar
matar ou morrer

"Na pior das hipóteses morrerás. Não te preocupes.
Morra por Deus e serás salvo"

Com a cruz e a espada eu fui à luta.
Nela joga-se a cruz fora,
Ela não te protege contra força bruta.
Deus, Uma infiel está sob a minha lâmina agora.

Parte III:
Dez segundos


Por dez segundos meu coração parou
e minha mente correu
correu por um espaço infinito
que findou por me levar de volta à igreja

O padre de minhas confissões
de minhas penitências
e que me levou a essa jornada insana
nos limites entre o certo e o errado
...o profano e o sagrado...
...a virtude... e o pecado...

Minha lâmina acaricia a face da bela infiel
seus olhos negros me soam pecado
pecado de sua opção, de não crer no divino
de equiparar meu Deus em Cristo e Maomé
pecado maculado de heresia vermelha
vermelha de sangue ainda em suas veias,
e vermelha de vinho, da maçã
daquela maçã que todos provamos

É realmente bela a infiel
imagino que, pelos traços, seria mãe de belas crianças
e imagino que, pelos traços, deve ser linda debaixo do véu
talvez mais linda ainda debaixo dos lençóis...

Não! Ai, terrível dama!
trouxeste no seio rubro de tua maçã
a serpente original
e me tentaste, me tentaste ao pecado!
O padre está certo, os infiéis são um mal
a ser expurgado da Terra Santa
à Cruz e à Espada!

Parte IV:
Quem manda?


"Caso necessário faça pilhagens pelo caminho"
"Sétimo mandamento sagrado de Deus: Não furtar"
"Décimo mandamento sagrado de Deus: Não cobiçar as coisas alheias"
"Mate-a, deixe o rubro escorrer e te purificar."
"Quinto mandamento sagrado de Deus: Não matar"

Borrando o conceito de virtude e pecado
Padre, me fizeste sentir assim.
Já não sei o que é certo ou o que é errado.

Deus! Esta pequena é realmente culpada?
Quem bateu o martelo em seu julgamento?
A Cruz que perdoa, é também o revés da Espada?
ou são a Espada e a Cruz duas formas da mesma coisa?
qual mandamento devo seguir,
os revelados a Moisés no Sinai?
ou os do padre devo cumprir?
Dai-me uma réstia de Vossa Luz, Pai!

Parte V:
Sob a mercê


Entre a cruz e a espada estou agora
é bela a infiel. A lâmina encosta em sua face
Padre, me fizestes jogar a palavra sagrada fora?
És tu o Diabo sob disfarçe?

Os mandamentos mosaicos
formam um mosaico perplexo em minha mente
cacos de uma verdade, absoluta?
espelhos de minh'alma dissoluta
não, não vou ser cúmplice desse holocausto frenético
e colar os fragmentos do Santo e do Ético

Não sou mais parte dessa cruzada
Viro a lâmina em mim,
Me ponho à mercê do fio da espada.

Parte VI:
Réstia de Sua Luz


Não, não ainda
Percebo agora a verdade
Mil vidas são ceifadas nessa terra
pelos mandos de uma só voz

Não, não ainda
Percebo a minha missão agora
Uma vida será ceifada em nome de mil
e mil testemunhas me defenderão no tribunal do Sagrado

Parte VII:
Um pouco de redenção


"Ah, meu filho,
Que alegria me dá vê-lo bem.
Tiveste sucesso em sua campanha?"

"Sim, padre,
tive sucesso em minha jornada
alcancei a Verdade que vinha buscando,
o que nos leva à próxima questão..."

"Qual seria?"

"Eu te trouxe um pouco de redenção, Padre"

Parte VIII:
O vinho da redenção

Finalmente me sinto pronto
Meu fio da espada agora rubro
Me parece uma clepsidra
ainda disposta a beber de mais vinho
o vinho da redenção
que me foi oferecido profeticamente pelo senhor
que enviei agora para o País Desconhecido
que inda citará o principe da Dinamarca

Não, não me arrependo de nada
e ainda me arrependo de tanto!
O que foi, está feito, feito está
e não cabe a mim julgar,
e sinto que sou citado pelo Tribunal Celeste
ouço a trombeta da anunciação, Gabriel,
e ela toca a minha marcha fúnebre

Dirá o poeta:
"Le gouffre a toujours soif,
La clepsydre se vide"
e eu remendo:
Ma clepsydre a toujours soif,
et donc, je lui donnerais du vin,
de mon vin de rédemption

Parte IX:
Julgamento


Boa noite, Santo meritíssimo,
Estou aqui para expor os fatos:
O réu em questão foi violentíssimo,
Ele tem de pagar pelos seus atos

“Oh! Que será que ele fez?”
“Meu Deus, deve ser perigoso!”
“Ordem no tribunal!”

O réu se julgava justo,
Quando ceifou a vida de milhares,
Imagina o meu susto,
Quando em sua defesa ele culpou o padre!

“Oh, o padre?”
“Traga o padre!”

Deus! Esse diabinho é um verdadeiro mau agouro!
Eu ordenei o massacre, sim,
Mas ele não devia ter ceifado a mim como a um mouro!
Eu, que fiz tudo seguindo Vossa palavra tim tim por tim tim!
Meritíssimo, joga o réu ao fogo!

“O acusado tem algo a dizer em sua defesa?”
“Seja feita a vossa vontade,
me submeto à Justiça da Cruz..”

Mil vozes de inocentes objetaram
As boas intenções do ex-usurário
Se converteram em votos de confiança
E ao mero escutar das vozes,
O Juiz compreendeu que a Justiça da Espada
já tinha sido feita
e que justiça deveria ser paga com justiça

“Que a Espada da Justiça seja justa, levem-no daqui!”

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

TO THE VIRGINS, TO MAKE MUCH OF TIME.
by Robert Herrick


GATHER ye rosebuds while ye may,
Old time is still a-flying :
And this same flower that smiles to-day
To-morrow will be dying.

The glorious lamp of heaven, the sun,
The higher he's a-getting,
The sooner will his race be run,
And nearer he's to setting.

That age is best which is the first,
When youth and blood are warmer ;
But being spent, the worse, and worst
Times still succeed the former.

Then be not coy, but use your time,
And while ye may go marry :
For having lost but once your prime
You may for ever tarry.


PARA AS VIRGENS, QUE FAÇAM PROVEITO DE SEU TEMPO
Robert Herrick, vertido por Cristiano Gomes

COLHA tuas rosas enquanto podes
O velho tempo corre sem fim,
E a mesma flor que hoje sorri
No amanhã jovem morre

O lume glorioso do céu, chamado Hélio
No seu incansável diário subir
Tem seu incansável diário cair
E seu diario morrer, sem jamais ser velho

Que a melhor das idades é sempre a primeira,
Quando são mais quentes o sangue e a juventude
Que de mal vai a pior, a cada minuto que se use
E de pior em pior se vai, até a hora derradeira

Que não te acanhes, e que o tempo aproveites
E ainda que te cases um dia:
Quando perderes a juvenil primazia
Que pode ser que para sempre espreites

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Analogia Espinhos bem armados Para proteger-me de mim mesmo Pele bem grossa para me adaptar e a doce água dentro de mim Queima-me ferozmente o sol Seus raios dão-me vida e dão me morte tal qual o ar que eu respiro Então passa um sertanejo Armado, para proteger-se com pele grossa, grossa para se adaptar com menos doce água dentro em si mas forte para pela vida pelejar Queima-lhe ferozmente o sol Mas a dificuldade dá-lhe vida dá-lhe vida e morte e o ar, o ar dá-lhe forças para lutar

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O último suspiro da Maçã de Prata Imensas muralhas, impenetráveis antes Ora tremem ante a gigante bombarda Constantino e sua famosa armada Defendem sua capital agonizante´ A última ruína da Grande Roma, Que pôde sobreviver a armas e anos, Perdida, para sempre, para os otomanos Entre pedaços de sua antiga redoma Constantinopla, cercada, ora perdida! Sua catedral agora é uma mesquita! Cristo esquecerá que você existiu... A lua se apagou sobre o seu negro céu Suas mulheres usarão sempre véu E só Maomé lembrará o seu nome

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O Sorriso da Gioconda



Ah, o sorriso misterioso da Mona Lisa! Eu sempre tento ler as pessoas, e sempre em seduzo por aquelas que eu não consigo ler. Adoro um enigma, um mistério. E por isso adoro conversar com artistas. Sejam atores, pintores, fotografos, poetas a alma de cada artista é um mistério a ser decifrado, a ser admirado como os mistérios sagrados dos católicos. Eis o mistério da alma, eis o mistério das minhas musas.

A Mona Lisa também é chamada em italiano de La Gioconda, e em francês de La Joconde. Etimológicamente podemos ligar esse segundo nome a gioco (jogo), que vem do latim jocus(jogo) através da sua derivada jocundus(bom, que se opunha a turpis, mau). A palavra jocus significava uma brincadeira, muita vez de mau gosto. Essa palavra se popularizou, e então desbancou a palavra ludus(jogo), que é a raiz etimológica de várias palavras como lúdico, ludibriar, lucrar, lograr, iludir(fazer entrar no jogo), aludir(aproximar-se da idéia do jogo), prelúdio(que antecipa o jogo), e do radical do supino lusum deu ilusão, dentre outras. Pra mais informações sobre o ludus, leiam a edição de setembro [nº59] da Língua Portuguesa.

Bom, agora que quem leu já está de saco cheio de etimologia, vamos à minha poesia:

O Sorriso da Gioconda

Queria te entender
Poder ler você
Como leio um livro:
Devagar,
Com gosto,
Com prazer...

Como se ama:
Devagar,
Com gosto,
Com prazer...

Como eu te amo...

Queria ver através dos seus olhos
E olhar para dentro de sua alma
Queria ver através desse sorriso indecifrável
De amor ou de desprezo
Queria ver você
Atrás de você
Através de você
Além de você
O você que não é você
O você que não se vê


Bom, agora a intertextualidade, que são duas releituras da Mona Lisa:

A Monicalisa, do Maurício de Souza



Em 1919, o dadaísta Marcel Duchamp pintou sobre uma reprodução barata da Mona Lisa um bigode e uma pêra, e a inscrição LHOOQ (que significa Elle a chaud au cul, literalmente "Ela tem calor no pescoço")



"A Gioconda sorri porque todos os que lhe puseram bigodes estão mortos" - André Malraux

Le rire (The laugh) de Sapeck (Eugène François Bonaventure Bataille) (1883)



Monna Vanna, obra de Salai, aluno de Leonardo da Vinci.

terça-feira, 13 de julho de 2010

"Nenhuma guerra pode ser santa."



* "Nenhuma guerra pode ser santa."

- Renato Russo, antes de tocar a música "Fábrica"; álbum As Quatro Estações ao Vivo (2004)

Guerra é um tema recorrente em muitos âmbitos. Decidi que as minhas postagens serão temáticas, com vários assuntos. Meu objetivo não é dissertar sobre o tema, mas postar uma poesia minha e alguns textos com o mesmo tema. Hoje eu vou por algumas músicas sobre guerra, de forma a poder mostrar um pouco do universo da guerra. Imagino que vai ser uma postagem longa, mas as pessoas podem ler só o que interessa (o que pode ser nada ou tudo, dependendo da pessoa).

Fiz uma pequena pesquisa etimológica sobre a palavra guerra. Parece que a raiz dela é germânica, apesar de os povos germânicos da época não terem uma palavra que exatamente significasse guerra. Werra, significava conflito, discórdia, confusão. Essa palavra parece ter originado o inglês worse(pior) e foi latinizada posteriormente para guerra, daí nossa palavra. A palavra latina para guerra era Bellus, Belli, o que provavelmente causava confusão com a palavra das linguas neo-latinas belo, bello, belle, e para evitar confusões essa palavra foi instintivamente abandonada, como diz o Oxford English Dictionary. Vale ressaltar que o radical de bellus, belli ainda pode ser encontrado em palavras como bélico, belicoso, beligerante etc. e que os alunos de Direito conhecem a palavra em termos, expressões e aforismos latinos, como o querido Jus Belli, direito da guerra ou justiça da guerra (jus significa direito ou justiça, romanos não leram Kelsen). A maioria dessas considerações pode ser encontrada aqui, outras eu esquisei no meu Houaiss, e algumas outras eu consegui discutindo o assunto com meu professor de latim. Aliás, se alguém quiser ter aulas particulares de francês, alemão, latim, inglês, espanhol, português ou italiano, me mande um e-mail, que eu ponho em contato com o meu professor.

Bom, cortando o papo etimológico, vamos à poesia. Eu li um pouco sobre segunda guerra mundial ra poder reescrever essa poesia direito hoje, ficou muito melhor do que era antes, aí vai:


Tem alguém aí fora?

Parte um: A despedida


“25 de outubro de 1942,
O Exército Britânico convoca o Senhor Kriegsopfer
Para compor uma unidade no front em El Alamein,
Devido às recentes necessidades de reforços no local”

“Papai! Quando você vai voltar?”
“Papai vai só fazer uma viagem a trabalho, querida,
Papai volta logo, viu? Logo, logo você vai ver um avião no céu!”

“Tchau, amor.”
“Não se preocupe, querido. Tudo vai ficar bem.”
“Eu te amo, sabia?”
"Vá sem medo amor, nós nos veremos de novo
em algum dia de sol..."

Parte dois: Fugindo

"Você acha que o ataque será bem sucedido?"
"A Operação Supercharge vai ser um sucesso,
Essa Guerra não vai ser a mesma depois..."
"Bom, vamos para a estação então.”

Boom!
Boom! Boom!
Boom!

Então esse é o fim?
Acabou o meu tormento?
Eu não queria que fosse assim...
mas vou aproveitar o momento
paz e tranqüilidade, enfim!

A operação foi bem sucedida,
E a guerra foi vencida
Mas por quem?
Por pais mortos,
Viúvas? Órfãos?
Atiramos bombas em quem?
Estamos em guerra contra espelhos
Você não pode correr, e nem se esconder: Vai atirar?
Você não quer pensar melhor?

Será que morrer é fugir?
será que matar é vencer?
será que morrer é sair?
Será que matar é libertar?
porquê será que eu estou fugindo?

Boom!
TRIIIIIIIIIIIIIIIIIIIM!

Parte três: E agora?

"Eins, zwei, drei, alle!"

TRIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIM!

“Alô?”
“Meus pêsames, madame,
seu marido, bravo combatente,
faleceu defendendo a Grã Bretanha,
Numa ofensiva, em El Alamein "

E agora?
o que vou fazer?
Seguir em frente? Ora...
...que melhora? E você?
ora por mim?
olha por mim?
As coisas vão melhorar?

"Olha, mamãe! Tem um avião lá no céu!"
"Vá sem medo amor, nós nos veremos de novo
em algum dia de sol..."

Porquê você me deixou dessa forma?
O quê eu vou fazer?
Porquê você teve de fugir?

"Tem alguém aí fora?"

Bom, agora como eu disse lá em cima, vou postar algumas músicas sobre guerra, com vídeos do youtube. As letras na língua original são deste site. O critério que eu usei foi o quanto a letra me soou genial, então é bem subjetivo.


Army Dreamers, Kate Bush




"B.F.P.O.*"
Army dreamers.
"Mammy's hero."
"B.F.P.O."
"Mammy's hero."

Our little army boy
Is coming home from B.F.P.O.
I've a bunch of purple flowers
To decorate a mammy's hero.

Mourning in the aerodrome,
The weather warmer, he is colder.
Four men in uniform
To carry home my little soldier.

"What could he do?
Should have been a rock star."
But he didn't have the money for a guitar.
"What could he do?
Should have been a politician."
But he never had a proper education.
"What could he do?
Should have been a father."
But he never even made it to his twenties.
What a waste --
Army dreamers.
Ooh, what a waste of
Army dreamers.

Tears o'er a tin box.
Oh, Jesus Christ, he wasn't to know,
Like a chicken with a fox,
He couldn't win the war with ego.

Give the kid the pick of pips,
And give him all your stripes and ribbons.
Now he's sitting in his hole,
He might as well have buttons and bows.

"What could he do?
Should have been a rock star."
But he didn't have the money for a guitar.
"What could he do?
Should have been a politician."
But he never had a proper education.
"What could he do?
Should have been a father."
But he never even made it to his twenties.
What a waste --
Army dreamers.
Ooh, what a waste of
Army dreamers.
Ooh, what a waste of all that
Army dreamers,
Army dreamers,
Army dreamers, oh...

("B.F.P.O.")
Did-n-did-n-did-n-dum...
Army dreamers.
Did-n-did-n-did-n-dum...
("Mammy's hero.")
("B.F.P.O.")
Army Dreamers.
("Mammy's hero.")
("B.F.P.O.")
No harm heroes.
("Mammy's hero.")
("B.F.P.O.")
Army dreamers.
("Mammy's hero.")
("B.F.P.O.")
No harm heroes.
[*--"B.F.P.O.": British Forces Posted Overseas.]

A Canção do Senhor da Guerra, Renato Russo



Existe alguém esperando por você
Que vai comprar a sua juventude
E convencê-lo a vencer

Mais uma guerra sem razão
E já são tantas as crianças com armas na mão
Mas explicam novamente que a guerra gera empregos
Aumenta a produção

Uma guerra sempre avança a tecnologia
Mesmo sendo guerra santa
Quente, morna ou fria
Pra que exportar comida?
Se as armas dão mais lucros na exportação

Existe alguém que está contando com você
Pra lutar em seu lugar já que nessa guerra
Não é ele quem vai morrer

E quando longe de casa
Ferido e com frio o inimigo você espera
Ele estará com outros velhos
Inventando novos jogos de guerra

Que belíssimas cenas de destruição
Não teremos mais problemas
Com a superpopulação
Veja que uniforme lindo fizemos pra você
E lembre-se sempre que Deus está
Do lado de quem vai vencer

O senhor da guerra
Não gosta de crianças
O senhor da guerra
Não gosta de crianças
O senhor da guerra
Não gosta de crianças
O senhor da guerra
Não gosta de crianças
O senhor da guerra
Não gosta de crianças

Era um Garoto que como eu amava os Beatles e os Rollings Stones, Engenheiros do Hawaíi



Era um garoto
Que como eu
Amava os Beatles
E os Rolling Stones..

Girava o mundo
Sempre a cantar
As coisas lindas
Da América...

Não era belo
Mas mesmo assim
Havia uma garotas à fim
Cantava Help
And Ticket To Ride
Oh Lady Jane, Yesterday...

Cantava viva, à liberdade
Mas uma carta sem esperar
Da sua guitarra, o separou
Fora chamado na América...

Stop! Com Rolling Stones
Stop! Com Beatles songs
Mandado foi ao Vietnã
Lutar com vietcongs...

Tatá-tá tá tá...
Tatá-tá tá tá...
Tatá-tá tá tá...
Tatá-tá tá tá...
Tatá-tá tá tá...
Tatá-tá tá tá...
Tatá-tá tá tá...

Era um garoto
Que como eu!
Amava os Beatles
E os Rolling Stones
Girava o mundo
Mas acabou!
Fazendo a guerra
Do Vietnã...

Cabelos longos
Não usa mais
Nem toca a sua
Guitarra e sim
Um instrumento
Que sempre dá
A mesma nota
Ra-tá-tá-tá...

Não tem amigos
Não vê garotas
Só gente morta
Caindo ao chão
Ao seu país
Não voltará
Pois está morto
No Vietnã...

Stop! Com Rolling Stones
Stop! Com Beatles songs
No peito um coração não há
Mas duas medalhas sim....

Tatá-tá tá tá...
Tatá-tá tá tá...
Tatá-tá tá tá...
Tatá-tá tá tá...
Tatá-tá tá tá...
Tatá-tá tá tá...
Tatá-tá tá tá...

Ra-tá-tá tá-tá ...
Ra-tá-tá tá-tá ...

Pouca gente sabe que a original da Era um Garoto é italiana, "Gianni Morandi - C'Era un Ragazzo Che Come Me Amava I Beatles E I Rolling Stones", vou por aqui embaixo:



C'era un ragazzo
che come me
amava i Beatles e i Rolling Stones
girava il mondo
veniva da gli Stati Uniti d'America
Non era bello
ma accanto a sé
aveva mille donne se
cantava Help, Ticket to Ride,
o Lady Jane, o Yesterday,
cantava viva la Libertà
ma ricevette una lettera
La sua chitarra mi regalò
fu richiamato in America
Stop ! Coi Rolling Stones !
Stop ! Coi Beatles stop !
M'han detto “va nel Viet-nam
E spara ai Viet-cong”
tatatatatatatatata…………

C'era un ragazzo
Che come me
amava i Beatles e i Rolling Stones
Girava il mondo e poi finì
a far la guerra nel Viet-Nam
Capelli lunghi
non porta più
non suona la chitarra ma
uno strumento
che sempre dà
la stessa nota “ta.ra.ta.ta”
Non ha più amici,
non ha più fans,
vede la gente cadere giù,
nel suo paese non tornerà,
adesso è morto nel Viet-Nam.
Stop ! Coi Rolling Stones !
Stop ! Coi Beatles, stop !
Nel petto un cuore più non ha.
ma due medaglie o tre
tatatatatatatatatatata

Brothers in Arms, Mark Knopfler



These mist covered mountains
Are a home now for me
But my home is the lowlands
And always will be
Some day you'll return to
Your valleys and your farms
And you'll no longer burn
To be brothers in arms

Through these fields of destruction
Baptisms of fire
I've watched all your suffering
As the battles raged higher
And though they did hurt me so bad
In the fear and alarm
You did not desert me
My brothers in arms

There's so many different worlds
So many different suns
And we have just one world
But we live in different ones

Now the sun's gone to hell
And the moon's riding high
Let me bid you farewell
Every man has to die
But it's written in the starlight
And every line on your palm
We're fools to make war
On our brothers in arms

Goodbye Blue Sky, Pink Floyd
Todo o CD The Wall é sobre os efeitos da guerra. Vale a pena ouvir o CD e ver o filme,"The Wall"



"Look mummy, there's an aeroplane up in the sky"
Did you see the frightened ones?
Did you hear the falling bombs?
Did you ever wonder why we had to run for shelter when the
promise of a brave new world unfurled beneath a clear blue
sky?

Did you see the frightened ones?
Did you hear the falling bombs?
The flames are all gone, but the pain lingers on.

Goodbye, blue sky
Goodbye, blue sky.
Goodbye.
Goodbye.
Goodbye.

"The 11:15 from Newcastle is now approaching"
"The 11:18 arrival...."

Sacrificed Sons, Dream Theater
Terrorismo é uma guerra não é?



Walls are closing anxiously
Channel surfing frantically
Burning city, smoke and fire
Planes, we're certain.
Faith inspired?


No clues a complete surprise
We'll be coming home tonight

Heads are turning towards the sky
Towers crumble, heroes die


Chorus:
undefined
Who would wish this on our people?
And proclaim that his will be done
Scriptures say he had misled them
All praise their sacrificed sons
All praise their sacrificed sons



[instrumental section]



Teach them what to think and say
Your ways saw in lightning
Watch them preach i can't relate
It cuts true love, ?? of hate

Chorus:

Who would wish this on our people?
And proclaim that his will be done
Scriptures say he had misled them
All praise their sacrificed sons
All praise their sacrificed sons


God on high
A mistake
Will mankind
Be extinct

There's no time
Time to waste
Who serves the truth
For heaven's sake?

Civil War, Guns N' Roses



"WHAT WE'VE GOT HERE IS FAILURE TO COMMUNICATE.
SOME MEN YOU JUST CAN'T REACH...
SO, YOU GET WHAT WE HAD HERE LAST WEEK,
WHICH IS THE WAY HE WANTS IT!
WELL, HE GETS IT!
N' I DON'T LIKE IT ANY MORE THAN YOU MEN." *
(whistle)

Look at your young men fighting
Look at your women crying
Look at your young men dying
The way they've always done before

Look at the hate we're breeding
Look at the fear we're feeding
Look at the lives we're leading
The way we've always done before

My hands are tied
The billions shift from side to side
And the wars go on with brainwashed pride
For the love of God and our human rights
And all these things are swept aside
By bloody hands time can't deny
And are washed away by your genocide
And history hides the lies of our civil wars

D'you wear a black armband
When they shot the man
Who said "Peace could last forever"
And in my first memories
They shot Kennedy
I went numb when I learned to see
So I never fell for Vietnam
We got the wall of D.C. to remind us all
That you can't trust freedom
When it's not in your hands
When everybody's fightin'
For their promised land
And

I don't need your civil war
It feeds the rich while it buries the poor
Your power hungry sellin' soldiers
In a human grocery store
Ain't that fresh
I don't need your civil war
Ow, oh no, no, no, no, no

Look at the shoes you're filling
Look at the blood we're spilling
Look at the world we're killing
The way we've always done before
Look in the doubt we've wallowed
Look at the leaders we've followed
Look at the lies we've swallowed
And I don't want to hear no more

My hands are tied
For all I've seen has changed my mind
But still the wars go on as the years go by
With no love of God or human rights
'Cause all these dreams are swept aside
By bloody hands of the hypnotized
Who carry the cross of homicide
And history bears the scars of our civil wars

"WE PRACTICE SELECTIVE ANNIHILATION OF MAYORS AND
GOVERNMENT OFFICIALS FOR EXAMPLE TO CREATE A VACUUM
THEN WE FILL THAT VACUUM AS POPULAR WAR ADVANTAGE
PEACE IS CLOSER" **

I don't need your civil war
It feeds the rich while it buries the poor
Your power hungry sellin' soldiers
In a human grocery store
Ain't that fresh
And I don't need your civil war
No, no, no, no, no, no, no, no, no, no, no, no
I don't need your civil war
I don't need your civil war
Your power hungry sellin' soldiers
In a human grocery store
Ain't that fresh
I don't need your civil war
No, no, no, no, no, no, no, no, no uh-oh-uh, no uh-oh, uh no
I don't need one more war

I don't need one more war
No, no, no, no uh-oh-uh, no uh-oh, uh no
WHAZ SO CIVIL 'BOUT WAR ANYWAY?
(whistle)

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Lá, tudo é como eu vejo...

... Luxo, calma e desejo. Porque um novo Blog? Sei lá, cansei do antigo. Vida nova, Blog novo. E nesse pretendo ser mais ativo, sei lá, nem que seja só pra falar pra mim mesmo. :D Tenho sentido necessodade de escrever, mas uma necessidade de escrever pra fora, de sei la, externar quando estou bem, quando estou feliz, quando me animar com um projeto novo, quando abandonar um antigo, é isso, me escrever, e me reescrever, e me descrever, e me transcrever. Isso é um bom registro, depois eu leio e vejo como eu estava - sim, como eu estava, e não quem eu era, porque a gente nunca é, a gente sempre está. Mutatis mutandis. E de repente, tudo muda. As coisas passam de forma alucinantemente rápido. Escola e faculdade são mundos diferentes, muito diferentes. Mas não foi só isso que mudou. Desde o segundo ano eu estudava italiano, mas foi só quando eu começei a estudar francês que eu vi como eu realmente gosto de aprender língua estrangeira, e gosto muito. desde então me arrisco no alemão e no latim também, mas minha dedicação real é pro francês e pro latim. Latim é uma língua bem difícil, cheia de declinações e mecanismos próprios de funcionamento. Estudar latim é muito legal pra quem quer aprender mecanismo de língua, mas não pra quem quer aprender língua pra falar. Latim é bom pra quem quer estudar etimologia, bem como o grego, mas esse aí eu nem quero me arriscar...ainda. Fora isso, latim é legal pra quem precisa ler citações latinas constantemente, eu quero aprender o mais rápido possível, mas ainda tenho que me convencer a decorar as declinações ;D O Francês é uma língua absurdamente interessante, única. É a única língua que escrever é absurdamenter mais difícil que falar, vai se arriscar a por os acentos certos na hora certa! É uma questão de prática! Mas compensa, porque é uma língua basurdamente bonita também. E as francesas te ouvem se você fala em francês, isso é muito importante. Eu gosto muito de tudo que eu já li de literatura francesa. Quase tanto quanto eu gosto da literatura brasileira, que pra mim é sem comparação - porque é escrita na lingua mais bonita de todas, a nossa - e eu tenho me esforçado pra ler mais em francês. Achei até num sebo um livrinho de escola primária lá da frança. O troço é muito maneiro, muito interessante. Mas como estava muito velho, não tinha como manusear. Então eu xeroquei ele todo, me custou dez vezes mais que o um real que eu gastei comprando ele. É especialmente interessante, além de achado arqueológico - é de 1932 - porque estudar uma língua nova é basicamente se alfabetizar de novo, então um livro de ensino fundamental é perfeito. Fora ele, que ainda vou começar a mexer, tenho arranhado alguma coisa do sofocles em francês, que me animei a ler depois de ler a Antigone do Jean Anouilh. Como eu disse, é uma literatura maravilhosa. Especialmente o teatro e a poesia. Falando em poesia, e no espírito francês, vou aproveitar e colocar aqui minha versão em português da L'invitation au voyage, do Charles Baudelaire:
Convite à Viagem Ah, minha querida, Que tipo de vida Juntos iríamos ter! Amar à vontade, Amar de verdade Tudo me lembra você! Os sóis ofuscados de dias nublados Pra mim tão encantados, Tão misteriosos E tão mentirosos, Como seus olhos molhados. Lá, tudo é como eu vejo: Luxo. Calma. E desejo. Os anos passantes Polem nossa estante E os outros móveis do quarto. As mais raras flores Misturam odores A um doce cheiro ingrato. Nosso teto lindo, Nosso espelho limpo, O esplendor oriental, Tudo sussurando, Tudo segredando, Sua doce língua natal. Lá, tudo é como eu vejo: Luxo. Calma. E desejo. Vê, lá, ancorados, Mil barcos parados Que só querem relaxar Para saciedade Da sua vontade Que vêm de todo lugar. Cada sol que dorme Todo o campo cobre, Os barcos, toda a gente, De ouro e jacinto. O mundo dormindo Numa luz gostosa e quente. Lá, tudo é como eu vejo: Luxo. Calma. E desejo.

L'invitation au voyage

Mon enfant, ma soeur, Songe à la douceur D'aller là-bas vivre ensemble! Aimer à loisir, Aimer et mourir Au pays qui te ressemble! Les soleils mouillés De ces ciels brouillés Pour mon esprit ont les charmes Si mystérieux De tes traîtres yeux, Brillant à travers leurs larmes.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté, Luxe, calme et volupté.

Des meubles luisants, Polis par les ans, Décoreraient notre chambre; Les plus rares fleurs Mêlant leurs odeurs Aux vagues senteurs de l'ambre, Les riches plafonds, Les miroirs profonds, La splendeur orientale, Tout y parlerait À l'âme en secret Sa douce langue natale.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté, Luxe, calme et volupté.

Vois sur ces canaux Dormir ces vaisseaux Dont l'humeur est vagabonde; C'est pour assouvir Ton moindre désir Qu'ils viennent du bout du monde. — Les soleils couchants Revêtent les champs, Les canaux, la ville entière, D'hyacinthe et d'or; Le monde s'endort Dans une chaude lumière.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté, Luxe, calme et volupté.

Charles Baudelaire