segunda-feira, 29 de novembro de 2010


O Espectador Anônimo

Quando eu te olho
e tu me olhas
nasce em mim algo de novo
dentro do meu coração
esse algo novo, aqui denovo
sempre, sempre faz um jogo
na minha imaginação

E eu creio que te amo
e creio que sou amado
e o coração pulsando
já está enfeitiçado
sou um espectador
anônimo
um espectador
sem dono

Quando eu te olho
e não me olhas
fica sempre na memória
o sabor da rejeição
esse gosto azedo, azar, denovo
é uma peça nesse jogo
da minha indecisão

Mas eu creio que te amo
me assombra a solidão
e o coração pulsando
me diz "ame com paixão"
mas a mente vai pensando...
e me vem a indecisão
sou um espectador anônimo
na própria indefinição

domingo, 28 de novembro de 2010


Fantasmas de uma noite áspera


De vez em quando,

no instante de um traço,

como fosse um rascunho de um sonho,

penso que por ti sou amado.


E nesse mero instante,

num ínfimo acaso, na rua,

olhando bem no interior dos teus olhos,

imagino a tua alma nua.


E minhas sombras conselheiras,

daquelas que só aos loucos atormentam,

me convencem que tu me amas

e que teu olhar era a prova daquele afeto.


Leitor amigo,

nunca confie em fantasmas noturnos

eles não sabem nada sobre a paixão

me levaram a uma acre-doce ilusão

Num jogo infantil de minha mente

Erotomania. Esquizofrenia.

No frio áspero da meia noite

Torno ao isolamento novamente

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A Peça Escocesa

Macbeth

Somos as três sombras do hoje
somos os três olhos do amanhã
somos três, três irmãs
três vezes trinta e três vezes
trinta e três vezes
as sombras e os olhos dos tempos

Somos o mal que engole a luz
somos a luz que encobre o mal
somos três, três bruxas
três vezes trinta e três vezes
trinta e três vezes
o mal que nasce da luz

Rei da Escócia, salve!
Barão de Cawdor, salve!
barão de Glamis, salve!
trinta e três vezes três vezes
três vezes amaldiçoado
pela bênção que é a ambição
Trinta e três vezes três vezes
três vezes corrupto
podre de corpo e alma
trinta e três vezes três vezes
três vezes morto
menos vivo que Duncan
menos vivo que Banquo

Colhe os frutos que
nascem dos ramos que
crescem do mal que
semeaste em teu coração

Rega as flores rubras de sangue
com líquido ainda mais rubro
que escorre dos
vinte profundos veios
que tu mesmo abriste em tua moral

Que sois Macbeth
Que sois Cawdor
Que sois Glamis
Que sois Escócia
Trinta e três vezes três vezes
três vezes maldito
sois um fantasma
alma penada
que não resiste em assombrar
toda vez em que se pronuncia
o nome da Peça Escocesa

domingo, 14 de novembro de 2010

L’ENNEMI
par Charles Baudelaire

Ma jeunesse ne fut qu’un ténébreux orage,
Traversé çà et là par de brillants soleils ;
Le tonnerre et la pluie ont fait un tel ravage
Qu’il reste en mon jardin bien peu de fruits vermeils.

Voilà que j’ai touché l’automne des idées,
Et qu’il faut employer la pelle et les râteaux
Pour rassembler à neuf les terres inondées,
Où l’eau creuse des trous grands comme des tombeaux.


Et qui sait si les fleurs nouvelles que je rêve
Trouveront dans ce sol lavé comme une grève
Le mystique aliment qui ferait leur vigueur ?

— Ô douleur ! ô douleur ! Le Temps mange la vie,
Et l’obscur Ennemi qui nous ronge le cœur
Du sang que nous perdons croît et se fortifie !

-

O INIMIGO
Charles Baudelaire, vertido por Cristiano Gomes

Minha juventude foi apenas um tenebroso mau tempo,
Entrecortado aqui e ali por brilhantes ensolarados;
O trovão e a chuva me feriram tanto com seu vento
Que me restam no jardim escassos frutos avermelhados.

Eis então que alcancei o outono das idéias
Quando se necessita da pá e do ancinho o uso
Para assemelhar ao novo as inundadas terras,
Onde a água esvazia em fossas como fossem túmulos.

E quem sabe se as flores novas que penso
Encontrarão nessa areia lavada como a da praia
Seu vigor a sorvir desse místico alimento?

— Ó dor! Ó dor! O Tempo devora a vida,
E o umbroso Inimigo que nos rói o coração
Com o sangue que perdemos cresce e fortifica!

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A Dream Within a Dream By Edgar Allan Poe Take this kiss upon the brow! And, in parting from you now, Thus much let me avow— You are not wrong, who deem That my days have been a dream; Yet if hope has flown away In a night, or in a day, In a vision, or in none, Is it therefore the less gone? All that we see or seem Is but a dream within a dream. A dream within a dream I stand amid the roar Of a surf-tormented shore, And I hold within my hand Grains of the golden sand— How few! yet how they creep Through my fingers to the deep, While I weep—while I weep! O God! can I not grasp Them with a tighter clasp? O God! can I not save One from the pitiless wave? Is all that we see or seem But a dream within a dream? Um Sonho que num Sonho acontece (Edgar Allan Poe, vertido por Cristiano Gomes) Toma este beijo na testa, querida! E, eis que chega a hora de minha partida! Além disso, tenha uma coisa sabida: Não estás errada, quem pensa: Que meus dias são um sonho apenas Ainda se a esperança com o vento foi-se Em um dia, ou numa noite Numa visão, ou em visão nenhuma É verdade que ela se esfuma? Tudo que de fato vemos ou que parece Não é mais que um sonho que num sonho acontece E me vejo entre o barulho Das ondas do porto e seu marulho E nas minhas mãos retenho areia De grãos dourados como o sol que me incendeia Tão poucos! E tanto que mergulham Pelos meus dedos, ao profundo Enquanto choro... para o mundo! Oh, Deus! Não posso evitar, Nem com um mais forte apertar? Oh, Deus! Não posso salvar Apenas um do insensível mar? É verdade que tudo que vemos ou que parece Não é mais que um sonho que num sonho acontece?

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Rascunho

Não são os olhos
Nem a boca
Nem o sorriso
Nem os cabelos
Nem cada um de seus traços
Num conjunto harmônico

O mais bonito em você
É como, com cada um desses traços
Você cria um rascunho perfeito,
De beleza e bondade
Um sorriso,
Um olhar,
Um charme!